09
Out
08

Silêncio.

Ontem, no meu caminho sozinho para casa, percebi que estava ensaiando discursos atrás de discursos com argumentos tão bons que não haveria como não te convencer. Eu falava sobre tudo. Tudo que aconteceu, tudo que eu já pensei que fosse acontecer. Nos meus discursos eu tinha coragem de te esculhambar e dizer que você, às vezes, gosta muito de exagerar teus sofrimentos e que na verdade, teu medo de sofrer era tão grande, que você afastava as pessoas que gostam de você. Nos meus discursos eu tinha coragem de dizer “então, meu querido, vai procurar a sua turma porque eu já tô é de saco cheio de você e das suas complicações“, ou então “eu não aguento mais gostar tanto de você e você só me tratar mal, adeus“. Todas essas frases ficariam muito boas em uma discussão de novela mexicana. O caminho pra sua casa ia se aproximando e meus devaneios só aumentavam. Nessa hora, eu buscava desesperadamente por palavras fortes, que fossem te pegar desprevinido, que fossem te dar um tapa na cara tão grande que você demoraria cinco minutos pra perceber que fora à nocaute. E eu as encontrei. Fracassado - eu pensei. Você é um fracasso tão grande no amor que põe a culpa nos outros pelas suas próprias incapacidades. Covarde, falso, cínico, exagerado. As palavras pulululavam sem parar e eu só desejava ter um caderno pra ir anotando todas sem que uma sequer me escapasse. A rua estava alagada. A chuva ia caindo como se nunca mais na vida fosse chover, e lá estava eu, com o olhar perdido em alguma parte da minha consciência, sendo ensopada pela água que caía violenta. Não me dei conta de que o tempo estava passando mais rápido do que o normal. Agora a minha distância de você era só uma questão de coragem. Resolvi olhar pro alto. A chuva batia forte em meu rosto e meus sinais de fraqueza tinham sido porcamente mascardos. A hora era aquela. Eu sabia tudo o que deveria falar. Eu sabia que não era pra eu concordar com tudo que você dissesse. Eu sabia que eu tinha que vomitar toda a mágoa e raiva que eu havia acumulando de você há meses. Eu sabia de tudo. Era como ter uma faca na mão e esperar o melhor momento pra enfiá-la em seu peito. Entrei, sentei na sua cama, meu coração empurrava minhas costelas. As palavras não saíam. Elas estavam ali, todas elas. Mas eu só conseguia olhar pro meu tênis e pensar que não ia adiantar eu falar nada. A música aumentou, as palavras dela me furaram com tanta força, que quase pensei que estava sangrando. As lágrimas escorreram. Poucas, mas doloridas. Tentei abrir a boca, em vão. As palavras tão bem escolhidas foram soterradas por uma avalanche de sentimentos.

E eu fui engolida pelo silêncio.

mas percebo agora que o meu sorriso vem diferente, quase parecendo me ferir…


1 Resposta para “Silêncio.”


  1. 1 Pacheco
    Outubro 13, 2008 às 6:12 am

    Posso imaginar cada momento, boa sorte minha pequena!


Deixe uma resposta