Arquivo para Outubro, 2008

28
Out
08

Cinza.

Passei três dias em São Paulo. Logo que cheguei percebi que realmente é a cidade cinza. Tava sol, até demais… mas sabe aquele lugar que você olha e só consegue ver… cinza? Pois é. São Paulo tem árvores, canteiros floridos, pessoas sorrindo e só. Sabe quando definitivamente falta alguma coisa pra dar um gosto em algum lugar? Que nem festa que só tem gosto se tem música, que nem sol que só tem gosto se tem cerveja, que nem futebol que só tem gosto se tem gol. Aí eu parei pra pensar e concluí que em São Paulo não tem praia. Como pode ser uma cidade que não tem praia? Cinza. Como pode haver um lugar em que as pessoas não saem pra trabalhar com uma sunga dentro da bolsa? Ou que caminham pela orla antes de ir pra escola? Ou que acordam sentindo cheiro de mar? Como pode haver um lugar em que água de coco só é tomada em caixinha? Como pode ser um lugar em que é preciso viajar mais de duas horas só pra poder sentir o gosto de água salgada? Ao contrário do que parece, eu não gosto de praia. Bem, na verdade eu adoro praia nos postais do Rio, adoro o reflexo da água na Enseada de Botafogo, sem falar na Baía de Guanabara. Adoro só pensar que, se um dia minha vontade de ir a praia me consumir, eu só preciso de 20 minutos e pronto, tô lá. Pode parecer besteira, mas pra mim todo carioca é mais feliz justamente por saber que a praia é logo ali. Praias colorem lugares com flores, coqueiros, listras, trançados e com alguma sorte, um peitinho de fora aqui e outro ali. Um lugar só tem graça se tem mulher com pouca roupa, churrasquinho com cerveja e futvôlei.
Passei três dias em São Paulo. Passei três dias longe de você e percebi que os dias longe de você são como Cidades sem praia:

cinzas e sem a menor graça.

digo que não ligo mas não vivo sem você.
eu falo não me calo.
tiro sarro só pra ver se eu consigo despertar o seu amor.
deixa estar.

eu sei que na verdade eu não consigo entender o nosso amor.
que o teu silêncio fala alto no meu peito
e que nós dois, estamos juntos na distância.
discrepância do destino!

22
Out
08

Rollercoaster.

Life is one hell-off-a rollercoaster.

Tá aí uma coisa que é verdade. A vida é uma montanha russa. Montanha russa infernal.
Talvez a sensação de estar em cima seja de alívio, seja tranquilizante. Acontece que não estamos falando de escadas e sim de montanhas-russas. A queda é iminente. Você mal abriu o olho e respirou fundo e lá vem aquela queda de 90º que extingue o ar dos seus pulmões. O maldito frio na barriga não te deixa em paz um só segundo e você vive com a constante sensação de que vai cair. E cai. Despenca. Grita, chora de medo. Mas de alguma forma você não se solta. Tá lá preso ou se segurando. Um segundo depois vem a sensação de subida. É quando dá pra abrir o olho e o medo passa – por tres segundos. Você tá no topo, no pico, dá até pra sentir o sol. Sensação boa de parecer que tá voando… Desce, sobe, e lá vem o looping, e você tá de cabeça pra baixo e de cabeça pra cima, e você não sabe quando vai ser a próxima queda, mas já não importa mais. As quedas fazem parte de toda a diversão. Elas te dão coragem pra próxima queda. Elas te fortalecem e, no momento seguinte você desaba e só toma o susto. Sabe, dá pra superar. Dá pra conviviver com os tais altos e baixos. Ter vida de montanha-russa é não saber o que te aguarda daqui há um segundo. É gritar de medo e repirar de alívio quase o tempo todo.
É viver de adrenalina.
E é exatamente assim que você me faz sentir.

eu quero mesmo é sentir seu calor! eu quero mesmo!
eu quero mesmo é cantar iê-iê-iê!
eu quero mesmo é gostar de você!
eu quero mesmo é falar de amor!

09
Out
08

Silêncio.

Ontem, no meu caminho sozinho para casa, percebi que estava ensaiando discursos atrás de discursos com argumentos tão bons que não haveria como não te convencer. Eu falava sobre tudo. Tudo que aconteceu, tudo que eu já pensei que fosse acontecer. Nos meus discursos eu tinha coragem de te esculhambar e dizer que você, às vezes, gosta muito de exagerar teus sofrimentos e que na verdade, teu medo de sofrer era tão grande, que você afastava as pessoas que gostam de você. Nos meus discursos eu tinha coragem de dizer “então, meu querido, vai procurar a sua turma porque eu já tô é de saco cheio de você e das suas complicações“, ou então “eu não aguento mais gostar tanto de você e você só me tratar mal, adeus“. Todas essas frases ficariam muito boas em uma discussão de novela mexicana. O caminho pra sua casa ia se aproximando e meus devaneios só aumentavam. Nessa hora, eu buscava desesperadamente por palavras fortes, que fossem te pegar desprevinido, que fossem te dar um tapa na cara tão grande que você demoraria cinco minutos pra perceber que fora à nocaute. E eu as encontrei. Fracassado - eu pensei. Você é um fracasso tão grande no amor que põe a culpa nos outros pelas suas próprias incapacidades. Covarde, falso, cínico, exagerado. As palavras pulululavam sem parar e eu só desejava ter um caderno pra ir anotando todas sem que uma sequer me escapasse. A rua estava alagada. A chuva ia caindo como se nunca mais na vida fosse chover, e lá estava eu, com o olhar perdido em alguma parte da minha consciência, sendo ensopada pela água que caía violenta. Não me dei conta de que o tempo estava passando mais rápido do que o normal. Agora a minha distância de você era só uma questão de coragem. Resolvi olhar pro alto. A chuva batia forte em meu rosto e meus sinais de fraqueza tinham sido porcamente mascardos. A hora era aquela. Eu sabia tudo o que deveria falar. Eu sabia que não era pra eu concordar com tudo que você dissesse. Eu sabia que eu tinha que vomitar toda a mágoa e raiva que eu havia acumulando de você há meses. Eu sabia de tudo. Era como ter uma faca na mão e esperar o melhor momento pra enfiá-la em seu peito. Entrei, sentei na sua cama, meu coração empurrava minhas costelas. As palavras não saíam. Elas estavam ali, todas elas. Mas eu só conseguia olhar pro meu tênis e pensar que não ia adiantar eu falar nada. A música aumentou, as palavras dela me furaram com tanta força, que quase pensei que estava sangrando. As lágrimas escorreram. Poucas, mas doloridas. Tentei abrir a boca, em vão. As palavras tão bem escolhidas foram soterradas por uma avalanche de sentimentos.

E eu fui engolida pelo silêncio.

mas percebo agora que o meu sorriso vem diferente, quase parecendo me ferir…